Morar num prédio, principalmente num rés do chão com quintal, é uma desgraça. Transformamo-nos no contentor do lixo e de toda a merda dos vizinhos. Há dias, como o de hoje, em que tenho a sensação de estar a viver na Cova da Moura, não sei a que horas vou conseguir deitar-me, quanto mais pregar olho. Os putos do segundo andar têm por hábito fazer grandes raves, daquelas que põem as paredes do prédio a tremer ao som dos Buraca Som Sistema e outros semelhantes. Para além dos decibéis musicais acima do limite, também temos o linguajar acima do desejado, o bater de portas e o voar de beatas ainda acesas, a caírem no quintal qual pirilampos em noite de verão. Estas raves por norma só terminam na presença duma brigada da PSP chamada pelos vizinhos do 2º andar, os mais incomodados, mas nem por isso os mais silenciosos. Estes últimos mudaram-se à pouco tempo. Malta na casa dos setenta, com um ar pacato. E eu toda contente a pensar na calmaria que ia ser. Qual quê, como diria a minha avó, parece que têm bichos carpinteiros, eles não param de manhã (06h30/07h00) à noite. Ele é um falar alto, um arrastar de mesas, cadeiras, sofás e, até deles próprios, que acaba por arrastar também os nervos de qualquer pessoa para o quinto dos infernos. Não há paciência. Escapa minimamente a piquena do 3º andar, mãe solteira com um filho a cargo, que não dá muito nas vistas exceto as peças de lingerie constrangedora, que insiste em deixar cair na altura de as estender e, as quais estou constantemente a entregar-lhe em mão.
A minha vizinha do lado costuma brincar comigo, dizendo que eu fiquei com o lado pior do prédio. Mas hoje, quando o pessoal dos esgotos tocou à campainha de ambas às nove da noite para desentupir a fossa comum, devido aos dejetos da vizinhança estarem a eclodir em ambos os quintais, tive de ripostar também em tom de brincadeira... afinal a merda dos vizinhos, independentemente de vir da esquerda ou de direita acaba sempre por afetar-nos a todos.
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PS. Desculpa M., mas este título ajustava-se como uma luva, teve de ser.