domingo, 7 de novembro de 2010

Conto para reflectir II

O Porteiro do bordel

Não havia no povoado pior ofício do que "porteiro do bordel". Mas que outra coisa poderia fazer aquele homem? O facto é que nunca tinha aprendido a ler nem a escrever, não tinha nenhuma outra actividade ou ofício.

Um dia, entrou como gerente do bordel um jovem cheio de ideias, criativo e empreendedor, que decidiu modernizar o estabelecimento. Fez mudanças e chamou os funcionários para as novas instruções.
Ao porteiro disse: - A partir de hoje, o senhor, além de ficar na portaria, vai preparar um relatório semanal onde registará a quantidade de pessoas que entram e os seus comentários e reclamações sobre os serviços.
- Eu adoraria fazer isso, senhor - balbuciou - mas eu não sei ler nem escrever!
- Ah! Sinto muito! Mas se é assim, já não poderá trabalhar aqui.
- Mas Senhor, não pode despedir-me, eu trabalhei nisto a minha vida inteira, não sei fazer outra coisa.
- Olhe, eu compreendo, mas não posso fazer nada pelo senhor. Vamos dar-lhe uma boa indemnização e espero que encontre algo que fazer. Eu sinto muito e que tenha sorte.
Sem mais nem menos, deu meia volta e foi-se embora. O porteiro sentiu o mundo a desmoronar-se.
Que fazer? Lembrou-se que no bordel, quando se partia alguma cadeira ou mesa, ele a arranjava, com cuidado e carinho. Pensou que esta poderia ser uma boa ocupação até conseguir um emprego. Mas só contava com alguns pregos enferrujados e um alicate mal conservado. Usaria o dinheiro da indemnização para comprar uma caixa de ferramentas completa. Como o povoado não tinha casa de ferragens, deveria viajar dois dias numa mula para ir ao povoado mais próximo a fim de realizar a compra. E assim o fez.
No seu regresso, um vizinho bateu-lhe à porta: - Venho perguntar-lhe se você tem um martelo para me emprestar.
- Sim, acabo de comprá-lo, mas eu preciso dele para trabalhar. Já que fiquei sem emprego.
- Bom, mas eu o devolverei amanhã bem cedo.
- Se é assim, está bem.
Na manhã seguinte, como havia prometido, o vizinho bateu à porta e disse:
- Olhe, eu ainda preciso do martelo. Porque não me o vende?
- Não, eu preciso dele para trabalhar e além do mais, a casa de ferragens mais próxima fica a dois dias de viagem.
- Façamos um trato - disse o vizinho. - Eu pagarei os dias de ida e volta mais o preço do martelo, já que você está sem trabalho no momento. - Que lhe parece? - Realmente, isto lhe daria trabalho por mais dois dias.
Aceitou... Voltou a montar na sua mula e viajou.
No seu regresso, outro vizinho esperava-o à porta da sua casa.
- Olá, vizinho. Você vendeu um martelo ao nosso amigo. Eu necessito de algumas ferramentas, estou disposto a pagar-lhe os seus dias de viagem, mais um pequeno lucro para que você as compre para mim, pois não disponho de tempo para viajar para fazer compras. Que lhe parece?
O ex-porteiro abriu a sua caixa de ferramentas e o seu vizinho escolheu um alicate, uma chave de fendas, um martelo e um cinzel. Pagou e foi-se embora. E o nosso amigo guardou as palavras que escutara: "não disponho de tempo para viajar para fazer compras". Se isto fosse certo, muita gente poderia necessitar que ele viajasse para trazer as ferramentas.
Na viagem seguinte, arriscou um pouco mais de dinheiro trazendo mais ferramentas do que as que havia vendido. De facto, poderia economizar algum tempo em viagens.
A notícia começou a espalhar-se pelo povoado e muitos, querendo economizar a viagem, faziam encomendas. Agora, como vendedor de ferramentas, uma vez por semana viajava e trazia o que os seus clientes precisavam. Com o tempo, alugou um espaço para armazenar as ferramentas e alguns meses depois, comprou um escaparate e um balcão e transformou o armazém na primeira loja de ferragens do povoado.
Todos estavam contentes e passaram a fazer compras na sua loja. Já não viajava, os fabricantes enviavam-lhe seus pedidos. Ele era um bom cliente.
Com o tempo, as pessoas dos povoados vizinhos preferiam comprar na sua loja de ferragens, a gastar dois dias de viagem.
Um dia ele lembrou-se de um amigo seu que era torneiro e ferreiro e pensou que este poderia fabricar as cabeças dos martelos. E a seguir, por que não, as chaves de fendas, os alicates, os cinzéis, etc.. E depois foram os pregos e os parafusos.
Em poucos anos, o nosso amigo transformou-se, com seu trabalho, num rico e próspero fabricante de ferramentas.
Um dia decidiu doar uma escola ao povoado. Nela, além de ler e escrever, as crianças aprenderiam algum ofício.
No dia da inauguração da escola, o prefeito entregou-lhe as chaves da cidade, abraçou-o e disse-lhe:
- É com grande orgulho e gratidão que lhe pedimos que nos conceda a honra de colocar a sua assinatura na primeira página do Livro de Actas desta nova escola.
- A honra seria minha - disse o homem. -Seria a coisa que mais me daria prazer, assinar o Livro, mas eu não sei ler nem escrever, sou analfabeto.
- O senhor? - disse o prefeito sem acreditar. O senhor construiu um império industrial sem saber ler nem escrever? Estou abismado. Pergunto-me: O que teria sido o senhor se soubesse ler e escrever?

- Isso eu posso responder - disse o homem com calma.
-Se eu soubesse ler e escrever... ainda seria o porteiro do bordel!

5 comentários:

  1. se ele soubesse escrever, teria escrito viagem com G!

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  2. Belladonna, nada acontece por acaso, será?
    Beijinhos.

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  3. Tive um familiar muito próximo que só tinha a quarta classe de antigamente,foi um grande empresário em Lisboa,Apesar de ter um contável,ninguém o enganava nas contas que fazia, tinha empregados e a sua empresa funcionou sempre muito bem,mas escolhemos ir viver para o estrangeiro,e não estamos arrependidos!!!

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  4. Belladonna

    Eu costumo dizer que a universidade da vida é um bom curso e por vezes fica-nos muito caro, mas não deixa de nos ser muito util, acredita.

    Beijinho

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